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quarta-feira, novembro 08, 2006

Lusofonia e os jogos lusos

Mais um artigo muito interessante do professor arnaldo gonçalves, desde Macau. Saído na edição online do jornal de negócios.

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O reduzido eco dos primeiros Jogos da Lusofonia, que tiveram lugar em Macau entre 7 e 15 de Outubro, na imprensa portuguesa é sintoma claro do divórcio entre as boas intenções na política externa e o afunilamento da agenda na política doméstica. Significa, também, que os responsáveis políticos não conseguem estruturar as prioridades da acção externa de Portugal consentindo em ir a reboque das estratégias dos outros.

Os primeiros Jogos da Lusofonia juntaram 700 atletas oriundos de onze países, de quatro continentes e representando oito modalidades desportivas. Os jogos tiveram lugar por iniciativa da Região Administrativa Especial de Macau contando com o apoio institucional do governo chinês. Os Jogos visaram, segundo os promotores, celebrar o espaço da lusofonia como comunidade de afinidades construídas em redor de uma mesma língua, o português. Os Jogos custaram 160 milhões de patacas (cerca de dezasseis milhões de euros) o que corresponde a 0,55 por cento das receitas brutas totais dos casinos de Macau, registadas nos primeiros sete meses do ano.

Estes números dão bem sinal da pujança do crescimento económico do pequeno enclave, administrado até 1999 por Portugal, mas os Jogos têm uma outra leitura: a utilização pela China do conceito da lusofonia, para propósitos de política externa.

Porquê este súbito interesse da China em potenciar a ideia da lusofonia, da presença portuguesa no Oriente, quando seria natural que tudo fizesse para fazer esquecer a presença portuguesa de 440 anos?

Trata-se de um exemplo de pragmatismo chinês, resultante das reformas económicas lançadas por Deng Xiao Ping na década de 80 explicável por duas razões principais. Em primeiro lugar, a emergência da China como grande potência mundial impondo à China que se afirme como potência pacífica, cosmopolita, aberta ao mundo e apoiante da multiculturalidade. Em segundo lugar, porque as enormes carências energéticas do seu modelo de desenvolvimento, da sua rede de infraestruturas, lhe recomenda que olhe para África, dada a sua riqueza em recursos naturais, como fornecedor alternativo de crude.

De uma forma muito chinesa os responsáveis políticos de Pequim preferem não pôr "os ovos no mesmo cesto", isto é, ficar dependentes de um único parceiro comercial e estratégico, seja a Rússia, a União Europeia ou os países do Médio Oriente. Isso poderia sair muito caro na eventualidade de uma crise internacional como a que se alimenta com a deriva nuclear do Irão.

Este reavivado interesse pelos países que foram parte do império português no continente africano prossegue, também, dois desígnios adicionais: conseguir o reforço da balança comercial com os países africanos e com o Brasil e a tomada de posições em empresas africanas a quem cabe a exploração de recursos naturais estratégicos. Sendo o país com maiores reservas cambiais no mundo a China é o país que qualquer fornecedor de matérias-primas gostaria de ter como parceiro.

Um outro aspecto merece referência. Em reunião do recente fórum para a cooperação económica e comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa que teve lugar, em Setembro passado, em Macau, foi estabelecido que o comércio entre a China e os sete países que constituem aquele possa atingir, em 2009, os 45 a 50 mil milhões de dólares americanos. O que a acontecer corresponderá ao dobro do valor actual do comércio entre a China e aqueles países.

Portugal tem, neste particular, uma posição pouco mais que modesta. Em 2005, as trocas comerciais entre a China e Portugal cifraram-se em mil milhões de dólares norte-americanos, com um défice para Portugal de 300 milhões de dólares. O valor global do comércio China-Países de Língua Portuguesa (I&E) é de 32 mil milhões de dólares a valores de 2005.

A confirmarem-se tais previsões económicas e as intenções chinesas quanto aos mercados africanos, Portugal pode ver reduzido, ainda mais, a sua influência em África.

Resta perceber até que ponto a nomeação do secretário-geral do MNE, embaixador Rui Quartin Santos como próximo embaixador em Pequim pode ajudar a inverter uma tendência de divórcio continuado de Portugal das oportunidades colocadas pelo mercado chinês.

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